Ailton Mesquita
1956 – Gente de tudo quanto é canto chegando ao local onde seria a nova capital do país. Os candangos, como eram conhecidos os cabras que ergueram Brasília no meio do nada, chegaram de carroças, caminhões e ônibus para esta tarefa histórica durante o fim dos anos 50. A maioria deles era daquele tipo trabalhador, que parece que nasceu para lutar por melhores condições: os tais dos nordestinos.
A cidade, projetada por Oscar Niemeyer, hoje Patrimônio Histórico da Humanidade e marco da arquitetura moderna, teve lá os seus perrengues. Alguns anos após a sua fundação, Brasília já ostentava diversas favelas. A partir daí surgiu a Campanha de Erradicação das Invasões – a CEI, sigla que originou o nome da cidade – para a transferência daquele mundaréu de gente que vivia em condições precárias.
1971 – Foi lançada a pedra fundamental da Ceilândia, no local onde se encontra a Caixa D’água, símbolo da cidade (espia aí a foto ao lado). “Cei”, que vem da sigla, e “lândia”, do inglês land, que significa cidade – ou terra. Como não poderia deixar de ser, a grande maioria dos assentados nesta região eram nordestinos.
Atualmente a Ceilândia tem cerca de 400 mil habitantes (PDAD 2010/2011) e é a maior região administrativa (cidade-satélite) do Distrito Federal. Alguns locais têm ares de interior: gente simples, sotaque e, é claro, feiras. A maior delas é a Feira Central da Ceilândia, cerca de sete mil metros quadrados de muita roupa, fruta, verdura, buchada, sarapatel e tudo que uma terra de cabra da peste tem a oferecer. Ela virou até música na belíssima voz da cantora brasiliense Ellen Oléria.
Das praças, em frente a feira, se ouve as lapadas nas mesas, seguidas de gritos de vitória do tipo “tome, fi duma égua!”. São as tradicionais partidas de dominó, que reúnem jovens, adultos e idosos num fuzuê amistoso.
Devido a essas características tradicionalmente marcantes na cidade, no ano de 1986 os ceilandenses receberam um grande presente. Trata-se da Casa do Cantador, única obra de Oscar Niemeyer localizada fora do Plano-Piloto. Palco de grandes apresentações de repente, embolada, poesia e exposições, o local é considerado um templo da cultura nordestina no Distrito Federal.
A Casa do Cantador conta também com a Biblioteca Patativa do Assaré, que possui um vasto acervo de literatura de cordel, e uma cozinha batizada de Maria Bonita, onde é servido o melhor da culinária arretada. Toda sexta-feira, às 20h, o projeto Sexta do Repente recebe poetas do país inteiro num evento que reúne repente, comida típica e muita risada.
Como se vê, onde houver nordestino, pode ser um gato-pingado ou uma multidão, lá estará a cultura do nordeste acesa como uma fogueira de São João. Falando nisso, Ceilândia também é palco de uma das maiores festas de São João do país, o São João do Cerrado, que, neste ano, recebeu músicos como Alceu Valença e Geraldo Azevedo.
Valei-me, é tanta coisa que não cabe num texto só!
*E com versos de cordel
Eu peço que num se avexe
Vim falar da Ceilândia,
Um pedaço do agreste
Vem do rumo do sertão
Arretado feito alazão
Emprenhando o centro-oeste
*Nos comentários, classifique a minha tentativa de poesia como: ( ) bonita por demais ( ) miserenta ( ) merece peixeirada no bucho